Papel dos Marcadores Hormonais Femininos na Fertilização in Vitro
27 fev 2026
A infertilidade é uma condição que afeta milhões de casais em todo mundo. Entre as principais técnicas de reprodução assistida, destaca-se a Fertilização in Vitro (FIV), procedimento no qual a fecundação do óvulo ocorre em ambiente laboratorial, com posterior transferência do embrião para o útero.
De acordo com a OMS, a infertilidade acomete entre 10% e 17% dos casais em idade reprodutiva, ou seja, o que representa que aproximadamente 1 em cada 6 adultos enfrentará dificuldades para engravidar ao longo da vida. Nesse contexto, a Fertilização in Vitro consolidou-se como uma das técnicas mais empregadas na medicina reprodutiva, possibilitando a fecundação extracorpórea e ampliando as chances de gestação (MATOS, 2019).
A infertilidade feminina apresenta etiologia multifatorial, geralmente decorrente da interação de diferentes alterações no sistema reprodutivo. O fator hormonal corresponde a maior parcela dos casos, e a disfunção ovulatória é uma das principais causas, respondendo por cerca de 25% a 40% dos casos. (OMONIYI Y, 2025).
O sucesso da FIV está diretamente relacionado a variáveis como idade materna, qualidade oocitária e embrionária, resposta à estimulação ovariana e receptividade endometrial. Neste cenário, a avaliação hormonal é etapa indispensável na prática clínica, auxiliando na estratificação prognóstica e na individualização do tratamento, fornecendo informações importantes sobre a reserva ovariana, a qualidade da ovulação e a condição do endométrio. (ESHRE, 2020).
Os exames hormonais são fundamentais tanto na fase inicial da investigação, com foco na avaliação da reserva ovariana, quanto durante o ciclo de terapêutica, quando são utilizados para monitorar a resposta à estimulação. Na fertilização in vitro (FIV), a análise hormonal criteriosa permite estimar o potencial ovariano, orientar o planejamento da estimulação folicular e assegurar condições adequadas do endométrio para a transferência embrionária. (BROEKMANS, 2006)
De modo geral, as dosagens basais são realizadas entre o 3º e o 5º dia do ciclo menstrual, período que corresponde à fase folicular inicial e oferece parâmetros mais fidedignos da função ovariana. Esses marcadores hormonais são essenciais para a individualização do protocolo terapêutico e para a estimativa prognóstica das chances de sucesso do tratamento. (ESHRE, 2020).
Marcadores de Reserva Ovariana
Hormônio Antimülleriano (AMH): Atualmente considerado um dos principais marcadores de reserva ovariana, pois reflete de forma mais direta a quantidade de folículos antrais remanescentes e, consequentemente, o potencial reprodutivo feminino.
Diferentemente do hormônio folículo-estimulante FSH, o AMH apresenta baixa variabilidade ao longo do ciclo menstrual, podendo ser dosado em qualquer fase. Estudos demonstram forte correlação entre níveis séricos de AMH e número de oócitos recuperados em ciclos de fertilização in vitro (FIV) (NELSON; ANDERSON; BROEKMANS, 2012).
Níveis reduzidos de AMH estão associados à baixa resposta à estimulação ovariana e menor número de oócitos captados, enquanto níveis elevados podem indicar risco aumentado de síndrome da hiperestimulação ovariana (SHO), especialmente em pacientes com alta reserva folicular (LA MARCA et al., 2010).
Hormônio Folículo-Estimulante (FSH)
O FSH é secretado pela hipófise anterior e exerce papel fundamental no crescimento e maturação folicular. A dosagem basal do FSH, geralmente realizada no início do ciclo menstrual, é tradicionalmente utilizada como marcador indireto da reserva ovariana (BROEKMANS et al., 2006).
Valores elevados de FSH basal estão associados à diminuição da reserva ovariana e a pior prognóstico reprodutivo, menos favorável. Contudo, devido sua variabilidade inter e intra-ciclo o FSH apresenta menor sensibilidade e especificidade quando comparado ao AMH, especialmente na identificação precoce de declínio da reserva ovariana (NELSON; ANDERSON; BROEKMANS, 2012).
Marcadores de Monitorização Durante a Estimulação Ovariana
Estradiol (E2)
O estradiol é produzido pelas células da granulosa sob estímulo do FSH e constitui marcador essencial para acompanhamento do desenvolvimento folicular durante a estimulação ovariana controlada (ESHRE, 2020).
A monitorização seriada do E2 permite a dinâmica do crescimento folicular de gonadotrofinas e orientar ajustes individualizados na dose de gonadotrofinas. Níveis elevados podem indicar resposta ovariana exacerbada e maior risco de hiperestimulação ovariana, enquanto níveis insuficientes podem sugerir resposta inadequada ao estímulo (AL-INANY et al., 2016).
Hormônio Luteinizante (LH)
O LH participa ativamente da esteroidogênese ovariana e da maturação final do oócito. Durante os ciclos de FIV, protocolos que utilizam análogos e antagonistas do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH) são utilizados para prevenir o pico prematuro de LH e evitar a ovulação precoce (AL-INANY et al., 2016).
Elevações precoces de LH podem levar à luteinização prematura, comprometendo o desenvolvimento folicular e a qualidade oocitária. Por outro lado, níveis excessivamente baixos podem afetar a produção adequada de estradiol e no suporte à maturação folicular.
Progesterona e Receptividade Endometrial
A progesterona é essencial para a transformação secretora do endométrio, processo indispensável para a implantação embrionária. Durante ciclos de estimulação ovariana, elevações prematuras da progesterona na fase folicular tardia têm sido associados à assincronia endometrial e redução das taxas de implantação embrionária (ESHRE, 2020).
Nessas situações, recomenda-se frequentemente a estratégia de criopreservação embrionária (“freeze-all”), com transferência em ciclo posterior, visando melhor sincronização entre desenvolvimento embrionário e receptividade endometrial, otimizando, assim, os resultados reprodutivos.
Conclusão
Os marcadores hormonais femininos desempenham papel central na condução da Fertilização in Vitro. O AMH destaca-se como principal marcador de reserva ovariana, enquanto FSH, LH e estradiol são fundamentais na monitorização da resposta à estimulação ovariana. A progesterona, por sua vez, é determinante na avaliação da receptividade endometrial.
A aplicação integrada desses parâmetros contribui para maior precisão terapêutica, melhores taxas de sucesso e redução de complicações, consolidando o monitoramento hormonal como elemento indispensável na medicina reprodutiva.
